Quer ser escritor?

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Quer ser escritor?

Muita gente me pergunta como se tornar um escritor.

Essa é uma questão bastante complexa, pois não se trata de uma receita de bolo.

O motivo desse texto é apenas compartilhar um pouco da minha experiência nesses últimos 14 anos.

Várias pessoas vão se pegar pensando: Últimos 14 anos? Mas ela não começou “agora”? É meus amigos… Como diz o ditado, rapadura é doce, mas não é mole.

Em primeiro lugar eu nunca pensei em ser escritora. Quando eu era pequena queria ser atriz. Mas não qualquer atriz. Eu queria ser a Emília do Sítio do Picapau Amarelo! O desejo ficou lá na infância apenas. Cresci e prestei vestibular. Informática. Conseguem me ver como Analista de Sistemas e Programadora? Pois é… Fiz a faculdade e, quando fui para o mercado de trabalho, percebi que não era nada daquilo que eu queria pra mim. Eu me senti completamente infeliz fazendo tudo aquilo. Até que eu fui parar numa editora como Assistente Administrativo no ano 2000. Sabe aquele momento mágico que tudo faz sentido? Ver todo o processo editorial, as decisões sobre as melhores publicações, as capas, as campanhas de Marketing?

Relembrei que quando criança escrevia muitas histórias e aquela vontade que morava lá no passado veio me visitar. Escrevi meu primeiro livro, “Os quinze anos de Carol”. Como não era a linha editorial da minha editora, busquei oportunidades de publicação fora, mas infelizmente não consegui. Então, junto com a minha irmã, criamos um site em 2001 que funcionava como uma novelinha teen. A cada 15 dias eu publicava um capítulo do livro e recebia os comentários por e-mail. A experiência deu muito certo! Vendo que o meu texto era bem aceito pelos leitores, consegui uma editora e publiquei em maio de 2002. Esse site não existe mais.

A editora era pequena. A alegria de publicar o livro foi grande, mas como ela tinha recursos modestos, a distribuição não foi das melhores e o repasse do direito autoral ainda mais precário. Frustração total.

Primeira lição para os autores iniciantes: aprenda como funciona o mercado editorial. Eu publiquei meu primeiro livro sem ter a menor noção de como tudo funcionava, mesmo trabalhando em uma editora. Adquira conhecimentos de como é feita a distribuição, o cálculo do custo do livro, as etapas da publicação, os processos de revisão, copidesque, capa.

Três meses após o lançamento do meu primeiro livro, minha mãe faleceu de câncer. Simplesmente apaguei a carreira de escritora da minha mente por dois anos. Até que um amigo insistiu para que eu continuasse a escrever. Então, voltei ao projeto do livro “A primeira vez a gente nunca esquece” e lancei em fevereiro de 2005. Novamente, editora pequena, com os mesmos problemas da anterior. A lição tinha sido dada, mas não tinha sido aprendida. De novo, fiquei imensamente feliz com o livro, ficou lindo, mas com os mesmos problemas.

Resolvi então juntar todo o meu dinheiro e em 2006 publiquei o livro “Sai da internet, Clarice!” de forma independente. Um belo dia eu tinha 1000 livros no meio da minha sala. E agora? Como vender? Foi a maior lição de toda a minha vida. Eu era a escritora, divulgadora, telemarketing, embaladora, Office girl. Trabalhei muito, mas também aprendi muito. Foi com esse livro que participei pela primeira vez de uma bienal do livro. E aí veio outro aprendizado: o escritor tem que ser cara de pau, acreditar no seu produto, para que outras pessoas também acreditem nele a ponto de gastar dinheiro pra levá-lo para casa. Timidez? Melhor esquecer em casa…

Em paralelo a tudo isso, trabalhava no esquema 9-18h com informática. Também fiz cursos de literatura infantojuvenil e produção editorial. Eu precisava do emprego para financiar meus cursos e meus livros. Foram três anos estudando todos os sábados, de 2006 a 2009.

Em 2010 resolvi “chutar o pau da barraca” e passei a viver só de livros. Uma decisão tida como completamente louca por muitos. Tem gente que hoje está nos meus contatos do meu Facebook que apontou o dedo na minha cara dizendo “larga dessa besteira de escrever livros para adolescentes!”. Fui chamada de inconseqüente, sonhadora, maluca, ouvi coisas do tipo “vai passar fome”, “brasileiro não lê”, “isso não vai dar certo” e o famoso “Você é escritora? Mas como paga as contas? Isso é hobby, né?”

Mas me fiz de surda. Era aquilo que eu queria. Quatro anos depois conquistei muita coisa, mas ainda existe muito para ser conquistado. Nunca vou achar que sei tudo, sempre temos coisas para aprender, podemos melhorar sempre.

Hoje trabalho com a Verus, do Grupo Editorial Record. Sou muito grata por terem acreditado no meu trabalho e sigo dando o melhor de mim, sempre.

Aí muitos escritores que estão começando a carreira agora me perguntam como fazer. Recebo mensagens por inbox, e-mails. Sinceramente não me sinto pronta para dar “o caminho das pedras” para ninguém. Não existe fórmula certa. Cada um precisa buscar a sua forma de trabalhar. Eu adoro trabalhar com adolescentes, então visito escolas e dou palestras. Eu adoro dar plantões em feiras do livro e bienais. Das 10 às 19h. Maluca? Talvez. Mas não faço isso por obrigação, para aparecer. Faço pois o trabalho me dá prazer.

Alguns escritores gravam vídeos. Eu acho maravilhoso! Eu simplesmente odeio me ver nos vídeos, acho que falo mal, que eu fico horrível. Quem sabe um dia eu não consiga superar essa limitação? Uns atuam mais nas redes sociais, tem mais seguidores, gostam de postar fotos. Não existe certo ou errado.

Outros fazem resenhas de outros autores, dão cursos, trabalham como tradutores, revisores e até mesmo editores. Cada um vai encontrar a sua melhor forma de trabalhar no mercado editorial.

Uma coisa que infelizmente acontece e que deixa muita gente frustrada: comparações. Nunca se compare com o outro, pois você sempre vai sair perdendo. Encontre o seu foco, a sua meta. Estude autores da área que você quer trabalhar. Participe de palestras. Faça cursos. Informe-se. A informação é um tesouro que ninguém vai roubar de você. Meio clichê ou cafona, mas é a mais pura verdade.

Já tomei muitos nãos na cara. Já chorei muito por causa de injustiças. Outra lição: você vai receber mais não do que sim. Então aprenda a lidar com eles. Eles doem, eu sei. Mas não tem como evitá-los.

Existe uma pergunta meio estranha, mas você terá que responder: “Eu quero ser um escritor ou eu quero ser famoso?”. Huuummm… Essa pergunta é uma senhora de uma pegadinha para muita gente. Fama x Sucesso. O que você realmente quer?

Você não vai agradar todo mundo. Enfie isso na sua cabeça!

Mas como eu vou conseguir ser publicado por uma grande editora? Trabalhando duro. Foi assim que eu consegui. Pode até ter demorado mais tempo, tem gente aí conseguindo coisas incríveis com um tempo de carreira menor. Porém, eu paro para refletir e concluo o seguinte: eu tinha a maturidade correta em 2002? Não. Muitas das vezes a gente quer muito uma coisa, mas não estamos preparados realmente, estamos iludidos. Eu só “caí na real” de verdade a partir de 2010. Não tenho qualquer pudor em assumir que até então eu brincava de ser escritora. Agora, dentro de mim, eu sinto ser escritora durante as 24 horas do meu dia. Eu respiro o meu trabalho. Eu invisto em viagens, livros, filmes. Repito: invisto. Não considero gasto quando eu estou me tornando uma profissional melhor. E, consequentemente, uma pessoa melhor.

Eu sempre brinco nas redes sociais que eu amo as segundas-feiras. Para mim não existe dia de trabalho. De domingo a domingo é dia de trabalho pra mim. Esqueço até de checar os feriados no calendário, coisa que eu fazia constantemente quando trabalhava em escritório. Infelizmente, muita gente tem certo preconceito quando escuta que o outro ama trabalhar. Existe uma crença de que trabalho é sinônimo de sofrimento. Só é “trabalhador” quem acorda às 5 horas da manhã e pega trem lotado. Eu trabalho em casa e não me considero menos trabalhadora do que ninguém.

Terminando esse texto, eu gostaria de declarar que não sou a dona da verdade e estou longe de querer ser. Apenas compartilhei um pouco da minha história, que teve um bocado de erros, mas felizmente com muitos acertos. Busque o seu centro, o seu foco e corra atrás do seu objetivo. Não perca tempo culpando as pessoas ou a falta das oportunidades. Se elas não existirem, sinta-se livre para criá-las! Invente, seja criativo, tenha ousadia.

Editado em 01/07/2014:

Dei uma entrevista bem legal para o blog da escritora Ronize Aline sobre o assunto:

http://www.ronizealine.com/2014/07/patricia-barboza-mais-das-mais.html

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